Ele disputou a Libertadores, deu um penta ao Naça, jogou ao lado de seu ídolo e relembra tudo com emoção e gratidão

(Foto: Weldon Luciano/GloboEsporte.com)

Jogar, defender as cores, o nome, a história do Nacional Futebol Clube foi uma grande honra, o meu maior feito na carreira-, a declaração é de um dos melhores jogadores que defenderam o Leão da Vila Municipal, o Bendelack. Ele afirma isso, mesmo tendo no currículo o Cruzeiro-MG, XV de Novembro de Piracicaba-SP, ABC-RN e Jorge Wilstermann-Bolívia.

No dia 19 de agosto de 1955 nascia, em Santarém-PA, Raimundo Augusto Cunha do Rosário, ou melhor, o Bendelack. Filho de Manoel Corrêa do Rosário e Dulce Cunha do Rosário, dividiu a infância com seus oito irmãos. Desde muito pequeno viu o pai apaixonado por futebol, se arriscar na carreira, mas sem sucesso, fez seu próprio clube amador. Mal sabia ele que dali sairia um grande ídolo, o próprio filho, que deixaria seu nome marcado na história do maior clube do estado do Amazonas.

-Meu pai tinha uma escola de futebol, junto com alguns amigos. Foi de lá que meu sonho começou a tomar forma. Eu via meu pai e meus irmãos jogarem, a família toda incentivava. Infelizmente nenhum deles se profissionalizou. Já eu, tive minha primeira chance, no futebol amador, aos 16 anos. Não tinha muita pretensão, mas inspirado nos meus ídolos, a vontade de conquistar títulos foi crescendo a cada dia-, relembrou Bendelack.

Naquela época, muitos eram os garotos que fechavam os olhos e se viam realizando as jogadas eternizadas pelos pés de Zico, Rivelino, Jairzinho e o rei Pelé. E, foram justamente, aqueles lances que o garoto Bendelack imitava com tanta perfeição que chamou a atenção dos olheiros no Pará. Foram muitos os convites que ele recebeu para ir a capital paraense, mas, apesar do sonho da bola no pé, ele ainda acreditava que seria apenas o professor Raimundo Augusto. E disse ‘não’ a todos os convites, mas a negativa, era o destino preparando os gramados amazonenses para ele fazer história.

-Eu jogava, mas também me dedicava aos estudos e queria ser professor. Por isso, disse não a todos os convites que recebi de Belém, mas minha determinação mudou de local em 1979, quando desembarquei em Manaus. Vim com minha esposa, Eliana Paixão e o meu filho Ney Bendelack, o mais velho, na época com um ano de idade. Foi nesse ano que começou minha história com o Nacional-, contou.

Foto: Nacional FC

Após ser escolhido pela bola e não o contrário, ele se dedicou a realização do seu sonho de garoto. Treinava incansavelmente e o talento com os pés chamavam a atenção do então treinador do Naça, Laérte Dória. Bendelack afirmou que foi também em 1979 que viveu a melhor temporada com a camisa do Mais Querido.

-A temporada mais emocionante foi a de 1979. O retorno do Rio Negro ao Campeonato. O Nacional com time formado por atletas da região, dois ou três jogadores de fora somente. Esse ano foi glorioso, porque nós tivemos uma única derrota em todo o campeonato, que foi justamente para o Rio Negro, no primeiro jogo da decisão. O Nacional estava desfalcado e perdemos de 1 a 0, num domingo, diante do estádio lotado. Mas na quarta-feira seguinte, nós devolvemos o mesmo placar. Esse foi o título do tetracampeonato e que me marcou-, ressaltou.

Chegava a década de 80 e o ponta direita voava em campo. Naquele ano, com a ajuda de Bendelack, o Naça conquista o seu pentacampeonato. No mesmo ano, o Leão foi convidado a realizar uma excursão pela Bolívia. Ele lembra que o Naça tinha um time muito forte, Fernandinho que também se tornou ídolo, estava surgindo, com todo gás. Aquela excursão do Leão mudou a história de sua vida.

-Em 1980, na excursão do Nacional, com um time bom demais, na época o Fernandinho, novo, estava surgindo, era a joia. Nós jogamos contra o Jorge Wilstermann, numa partida emocionantes. Não sentimos a altitude e vencemos por 3 a 0. Eu consegui fazer uma grande partida e isso chamou a atenção dos dirigentes do nosso adversário. Lembro que eles me fizeram a proposta para ficar, ainda no vestiário. Foi então que o Nacional decidiu me emprestar. Era o início de uma grande temporada-, disse.

Com o Jorge Wilstermann da Bolívia, o garoto que sonhava ser jogador foi muito além do que imaginava. Além de disputar um dos maiores torneios de futebol do mundo, a Taça Libertadores da América, ele teve a oportunidade de jogar ao lado de seu ídolo, Jairzinho, em 1981. Ele relembra um dos jogos, diante do Flamengo-RJ.

-Era uma terça-feira, 13 de outubro de 1981, no estádio Felix Capriles, em Cochabamba, na Bolívia. Eles abriram o placar, mas empatamos o jogo no segundo tempo e acabamos deixando eles marcarem no fim. Uma cabeçada do Adilio. Já, no Rio, nós saímos na frente e depois tomamos uma virada. Acabamos perdemos nos dois jogos, mas foram duas grandes partidas. Eu lembro que o jogo de ida, foi o primeiro a ser narrado pelo Galvão Bueno e naquele ano, o Flamengo conseguiria seu primeiro título mundial-, afirmou.

Em 1982, Bedelack foi emprestado ao Cruzeiro-MG, onde ele acabou pegando habilidade com a perna esquerda. Depois de um período, ele retornou ao Nacional, onde conquistou o título de 1983 e 1984. No ano de 1985, ele foi novamente emprestado, desta vez ao XV de Novembro de Piracicaba, justamente com Dadá Maravilha. Após um ano e seis meses, ele decide passar férias em sua terra natal e a torcida azulina acabou vendo seu ídolo tomar uma decisão que parecia precoce.

-Em 1986 a 1987, ainda joguei pelo ABC-RN e depois da temporada, decidi ir passar as férias em Santarém, mas a família queria ficar por lá. Eu ainda recebi a proposta do Maneca e aceitei retornar ao Nacional, mas percebi que era o momento de parar, mas não pendurar as chuteiras-, enfatizou.

Bendelack então decidiu sair do campos profissionais e foi brilhar no futebol amador. Ainda atuou pelo São Raimundo e Tapajós. Times que lotavam e davam espetáculo e que pagavam muito bem. Foi nessa época também que ele arriscou ensinar mais que ciências, decidiu passar adiante o que aprendeu como jogador. Em 1997, já como treinador, classificou a Pantera no seletivo, para o Campeonato Paraense de Futebol.

-Fiquei um ano e seis meses jogando em Natal, 86 e 87, e depois vim passar as férias em Santarém. Já tinha conversado com o Maneca, eu iria para o Nacional. Só fui passar 15 dias. Mas minha família não queria mais sair daqui e eu acabei ficando. E em 1987 eu parei. Retornei em 1988, mas como amador. Depois fui auxiliar do São Raimundo e em seguida assumi como treinador. Reverti minha categoria para amador e fiquei até 1992. Quando decidi parar mesmo. Fui trabalhar em outros campos, fui gerenciar umas empresas-, revelou.

Um dos maiores erros de grande parte dos atletas é quanto a hora de parar, mas não foi o caso de Bendelack. Ele, com todo o apoio da família, com conhecimento que iam além das quatro linhas, sempre soube o que queria e parou, deixando um grande legado. Com experiência de quem fez história é perguntado sobre que conselho daria aos garotos que sonham ser jogadores de futebol, ele que geralmente carrega um sorriso no rosto, de repente fica sério e pensativo, mas faz questão de opinar.

-Se você me perguntasse isso entre 80 e 90, a resposta seria outra. Nesses anos foi a época de ouro do futebol amazonense na base. Para você ter ideia, o time tetra campeão de 1979, a maioria era da base do Nacional. Os garotos se preparavam para defender a camisa dos seus clubes com garra mesmo. Claro que hoje a situação é bem diferente, mas vejo que está melhorando. Agora uma coisa lhe falo, nós temos muitos profissionais competentes e garotos com talento ai em Manaus. O problema é que a geração de hoje está mais preocupada com internet, celular, coisas de marca, o que torna eles desobedientes, mas não deixo de acreditar que o futebol amazonense vai ressurgir, com as joias da base-, relatou.

Depois de 30 anos, em 2014, já curtindo a aposentadoria ao lado de sua eterna namorada e esposa, Eliana Paixão, seus três filhos e os cinco netos, ele foi convidado a voltar a Manaus, mais precisamente a Vila Municipal e tamanha foi sua surpresa.

-Depois de 30 anos, retornei a Manaus, através de um convite da ATON, nas pessoas de Loss Lene, Wilson Machado, Adalberto e o também ex jogador, Correa. Eu senti uma emoção tão grande que as lágrimas caíram sem eu querer. Não tinha noção do quanto a torcida me via como alguém que fez muito pela história do Nacional Futebol Clube. Para mim eu tinha sido mais um que passou pelo clube. Meu carinho pelo Naça, pela torcida é imenso. Eu tenho a camisa do título. Nacional sempre será o Nacional no meu coração e na minha história-, completou.

O que foi o Nacional Futebol Clube na sua vida?

-Eu sempre me identifiquei muito com o Nacional, tanto que eu só defendi o Leão em Manaus. Nunca fechei com nenhum outro clube e sempre fui muito querido, tive boa relação com todos. Inclusive, o Maneca, para nós, daquela época, ele foi mais que um presidente. Ele nunca deixou faltar nada para nenhum de nós. Minha família tem um carinho muito grande por ele. É nosso ídolo. O maior presidente que o Nacional já teve. Até a torcida do Naça engrandece essa relação. A Arlete, uma das maiores torcedoras do clube. Para mim, a maior representatividade feminina, para o Nacional que sempre abriu as portas para sua torcida. Minha família sempre foi recebida por ela. Eu fui e serei por toda a minha vida muito grato ao Nacional Futebol Clube por tudo o que vivi e tudo o que sou-, finalizou.

A história do garoto paraense, com alma de amazonense, que era destro e atuava pela ponta direita, que tinha como principal qualidade correr em velocidade com a bola no pé e driblar, conhecia bem o seu talento. Tanto que o dominava e era o terror de seus marcadores. Ele lembra que o forte era a perna direita e que a esquerda só servia para subir no ônibus, mas admite que o gol mais bonito de sua carreira foi justamente com a esquerda, numa partida pelo Naça contra o Sampaio Correa-MA.

Fonte: Nacional FC

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