O homem da sala 10, um improviso que deu certo

João Nunes Romero, ou simplesmente, Jota Nunes

O início

Tarde de domingo em Manaus no dia 13 de novembro de 1955, jogavam no estádio Mário Filho, o Maracanã, as seleções de Brasil e Paraguai. Uma data inesquecível para Jota Nunes, além de aniversário de sua mãe, era o primeiro contato profissional do locutor como membro da equipe esportiva da Rádio Difusora do Amazonas como plantonista. Assim começou a trajetória de um dos profissionais da área esportiva mais respeitado do Estado.

João Nunes Romero ou simplesmente Jota Nunes nasceu em Manaus no dia 26 de abril de 1935, ainda ia completar 20 anos quando assinou o seu primeiro e único contrato no Rádio amazonense, no dia 18 de abril de 1955 na Rádio Difusora. Tornou-se locutor por acaso ou acidentalmente conforme suas palavras em entrevista no dia 14 de abril de 2000.

Ainda jovem morando no bairro da Praça 14, Jota Nunes saiu da casa da namorada e se dirigiu ao Serviço de Publicidade Serenata, onde atuava como operador de som no serviço de alto-falante dando uma força ao amigo e locutor Moisés Bonasser.

Certo dia, atarefado com outros serviços, Bonasser pediu a Jota Nunes que pegasse a pasta de textos e fizesse a leitura dos anúncios e dos recados do serviço de som, pedido que foi recusado na hora por Nunes, afirmando que estava ali apenas para colocar os discos.

Com a insistência de Bonasser, Jota começou o trabalho fazendo a leitura de um comercial e em seguida dos outros anunciantes do serviço de publicidade. Bonasser gostou do estilo de narração de Jota Nunes. Era uma locução rápida, mas com uma boa dicção, fácil de ser entendida. Bonasser afirmou que Jota Nunes daria um bom locutor esportivo no Rádio. Jota Nunes ignorou a observação do amigo e fez o seguinte comentário:

“Mas que conversa é essa rapaz, eu quero saber de Rádio”. Naquela época, a Rádio Difusora apresentava aos domingos o programa “Variedades Gelomatic”, sendo apresentado a cada domingo em bairros diferentes, seguindo uma programação variada. Esse programa era patrocinado pela loja Braga & Cia. para promoção de venda das geladeiras Gelomatic.

No domingo em que o programa foi apresentado na Praça 14, Jota Nunes começou pela manhã no serviço de som a fazer a publicidade do programa:

“Hoje a partir das 16 horas no palanque oficial prestigie o programa Variedades Gelomatic, comando de Rômulo Gomes, a Rádio Difusora do Amazonas transmitindo direto da Praça 14”.

Nesse domingo, com o hábito de chegar mais cedo ao local de trabalho para conhecer o ambiente e bater um papo com os moradores do bairro para descontrair, o apresentador Rômulo Gomes ouviu Jota Nunes num desses comerciais. Depois confidenciou ao operador de som da Difusora, Jaime Pascarelli que Nunes tinha talento para o Rádio.

O operador de som, que também era amigo de Jota Nunes se encarregou de fazer o convite de Rômulo Gomes para que ele fizesse um teste na Difusora. Nunes pensou até que fosse uma brincadeira, falando que estava ali só quebrando um galho e para se divertir, pois, aquilo ali, era apenas lazer. Além de Pascarelli, mais dois amigos, Amazonas e Escurinho, reforçaram o convite, pedindo a Jota que pensasse bem na proposta feita por Gomes. Com esses insistentes pedidos, Nunes perguntou a Pascarelli quanto ganhava um locutor.

Na época, para os locutores iniciantes a Difusora pagava 1.200 cruzeiros mensais. Jota não aceitou o convite alegando que esse valor ele ganhava em uma semana trabalhando em sua casa no comércio. Pascarelli não desistiu da ideia argumentando que Nunes poderia ocupar um espaço de tantas horas na emissora e fora do horário, ele poderia tocar a sua rotina de trabalho extra.

Mesmo dizendo que não tinha pretensões de se tornar locutor, mas depois de muita insistência, no dia 18 de abril de 1955, Jota Nunes resolveu fazer o teste. Rômulo Gomes, que na época acumulava as funções de diretor artístico e comercial na emissora, pediu que ele estivesse no estúdio às 10 horas porque naquela hora estaria presente o jornalista e proprietário da Rádio, Josué Cláudio de Souza.

Acompanhado do amigo Escurinho e assessorado por Jaime Pascarelli, enfim, é feito o teste de locução de Jota Nunes. O programa desse horário era apresentado pelo falecido locutor João Bosco Ramos de Lima. Rômulo pediu a Bosco que explicasse como se trabalhava, dizendo que Nunes já era tarimbado, tinha experiência e dava conta do recado. Jota Nunes deixou claro que a sua experiência era apenas no serviço de som da Praça 14, uma prática que o ajudou muito em sua longa trajetória como locutor.

João Bosco explicou que o período de uma gravação (discos) era de mais ou menos uns três minutos. Geralmente tocava duas ou três gravações, depois o operador de som, na época denominado controlista, dava o sinal para anunciar a hora, o prefixo da emissora e o nome do programa que estava sendo apresentado. Eram lidos os textos, principalmente para os anúncios locais, dos anunciantes de fora só tinham gravados os comerciais do Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, produtos Gessy Lever (sabonetes e pastas), Melhoral e Pílula da Vida.

O programa ficava no ar de dez ao meio dia. Bosco ficou na assessoria de Jota Nunes por uns dez minutos. Nunes pronunciou as primeiras palavras na emissora. Depois Jota Nunes ficou assessorando Bosco na programação anotando os recados, sem saber que tinha sido muito elogiado por Josué Cláudio de Souza e Rômulo Gomes, além do aval do próprio João Bosco.

Ao término do programa, Jota Nunes perguntou a Bosco quando que ia ocorrer o teste. Bosco respondeu: “O teste é isso aí, você acabou de ser testado. O teste é feito assim, eles estão te escutando lá dentro, qualquer problema ele te diz”.

Rômulo falou para Jota Nunes que o aparelho de gravação da emissora estava com defeito, por isso o teste era feito daquela maneira. Naquele momento estava sendo apresentada ‘A Crônica do Dia’, com o seu titular Josué Cláudio de Souza. Rômulo Gomes no posto de diretor artístico da emissora reiterou o convite a Nunes para que ele fizesse parte do núcleo de locutores da emissora.

Relutante, afirmando que estava ali por curiosidade, Jota Nunes de cara não aceitou o convite em virtude do baixo salário oferecido aos locutores iniciantes. Rômulo fez Jota reconsiderar mostrando que ele poderia conciliar às funções paralelamente. Se ele trabalhasse em horários diferentes poderia ganhar experiência e em qualquer eventualidade ele entraria na programação podendo passar para o horário noturno e assim ficar livre no horário diurno para exercer outras atividades.

A partir deste horário e desta data (12 horas e vinte minutos, do dia 18 de abril de 1955) Jota Nunes passou a fazer parte do Cast de locutores da emissora, profissão que exerce até hoje. Portanto em 2015, 60 anos de Rádio e 60 anos de Rádio Difusora. Meses depois, começou a fazer parte da equipe esportiva, quase que por acaso. Em entrevista, Jota Nunes recorda:

“Naquela época, a única praça esportiva existente em Manaus era o antigo estádio do Parque Amazonense, situado no Beco do Macedo. Só havia transmissão esportiva na emissora se houvesse patrocínio, se não tivesse apoio era apresentado o programa ‘Parabéns a Você’ das 13 até às 19 ou 20 horas”.

O surgimento do plantão esportivo

O formato do programa apresentava a seguinte forma: tocava três músicas, em seguida felicitações aos aniversariantes do dia solicitadas geralmente por parentes e amigos. Jota Nunes não esquece do primeiro texto escrito por ele, conforme pedido do ouvinte.
“Às vezes alguém telefonava para a emissora e perguntava o resultado do jogo ao operador, como ele não sabia, não dava o retorno”.

Por isso, Jota Nunes resolveu tirar o rádio de perto do operador que servia apenas como retorno e levou para o estúdio instalando uma antena. Numa dessas tentativas, o locutor conseguiu captar ondas da Rádio Jornal do Commercio de Recife que estava no intervalo do jogo Brasil e Paraguai. O placar estava 0 x 0. No início do segundo tempo, o Brasil fez um gol, ao informar o placar do jogo aos ouvintes da emissora, Jota foi tomando gosto pela profissão.

A Rádio Jornal do Commercio transmitia jogos do campeonato pernambucano, mas informava o resultado dos jogos de outros campeonatos estaduais e internacionais. Este foi o ‘ponta pé inicial’ de Jota Nunes na carreira de plantonista esportivo.

Quando a emissora transmitia jogo direto do Parque Amazonense, Nunes ficava nos estúdios dando os detalhes dos jogos que estavam ocorrendo em outras praças esportivas. A emissora conseguiu um transmissor mais potente e com isso conseguiu também contato com emissoras das regiões Sudeste e Sul, através do longo alcance captado pelo novo transmissor.

Com isso, ficou mais fácil ouvir às Rádios Nacional, Globo e Tupi do Rio de Janeiro; Bandeirantes, Record e Panamericana de São Paulo, além da Rádio Guaíba do Rio Grande do Sul. Começava a ficar mais prática para Jota Nunes a tarefa de passar a informação aos ouvintes, principalmente dos grandes clubes do Rio de Janeiro, que sempre tiveram à admiração maior de torcedores de outros Estados.

Nesse período, João Bosco Ramos de Lima era o principal locutor esportivo da Difusora, auxiliado por Rômulo Gomes nas transmissões. Quando precisava de alguma informação do estúdio fazia a seguinte chamada:
“Vamos até a sala 10 com Jota Nunes acompanhar o andamento de outros jogos pelo Brasil”.

Esses dizeres usados por João Bosco deram origem ao pseudônimo adquirido por Jota Nunes por essas quase seis décadas de longos serviços prestados ao esporte amazonense. A dificuldade enfrentada por Nunes no início da carreira foi apenas à falta de recursos tecnológicos que através do seu esforço e dos demais integrantes da equipe esportiva foi sendo superada. Jota inovou e aprimorou as técnicas do plantão esportivo como destacou em entrevista:

“As dificuldades em qualquer ramo de trabalho vai aparecer, o importante é que nunca o profissional abaixe a cabeça, pois, se fizer isso, a tendência é piorar. As dificuldades desaparecem com o seu esforço e a dedicação com que encara o trabalho”.

Propostas de trabalho em outros estados

Na entrevista, Jota Nunes disse que recebeu proposta para trabalhar em outro Estado, mais precisamente no Ceará, no início da década de 60. Um diretor comercial da Rádio Iracema de Fortaleza, do qual o radialista não lembra mais o nome estava de passagem por Manaus, era parente de um deputado estadual do Amazonas daquela época Tupinambá de Paula e Souza, e que estava hospedado na antiga Pensão Maranhense. O radialista cearense e o deputado amazonense chamaram Jota para tomar um café.

O deputado se referia ao locutor amazonense com muitos elogios. Falou ao primo que Jota Nunes era o “homem de sete instrumentos da Rádio Difusora”, dada a sua versatilidade como usava os mecanismos do Rádio, seja como: plantonista esportivo, locutor comercial e principalmente como correspondente do interior com seus avisos.

Com essa apresentação, o diretor da emissora cearense simpatizou muito com Nunes dizendo que era um homem desse perfil que a Rádio Iracema estava precisando, fazendo assim o convite ao locutor amazonense. Jota se sentiu muito lisonjeado com a proposta, mas acabou recusando, alegando que tinha família aqui, e lá ele não conhecia ninguém. Disse ainda que além de trabalhar na Rádio Difusora, era jornalista credenciado da Assembléia Legislativa do Estado e também já estava despertando o gosto pela política aqui na cidade.

O diretor cearense tentou mudar a ideia de Jota Nunes, oferecendo um salário de plantonista esportivo e outro de locutor de utilidade pública, similar ao que Nunes fazia como o correspondente do interior na Rádio Difusora, Jota agradeceu o convite, mas recusou a proposta. Mais tarde, outro convite foi feito, agora pela Rádio Nacional de Brasília, na década de 70 por Expedito Monteiro, um antigo funcionário da Rádio Difusora que trabalhava na emissora do Distrito Federal, e que teve mais uma vez a proposta recebida recusada. Jota Nunes alegou:

“Eu prefiro ficar aqui mesmo, aqui eu já conheço todo mundo. A Rádio Difusora é como uma família, todos são unidos e sempre tivemos um excelente ambiente de trabalho. Por isso, fui ficando e até hoje estou aqui”.

Orgulho do que faz

Jota Nunes se orgulha de ter sido o primeiro plantonista esportivo do Amazonas. Esse trabalho foi iniciado na década de 50, além de ter aprimorado a técnica no setor. Com o advento da Zona Franca, em 1967, Jota Nunes adquiriu um rádio-gravador portátil, levou ao estúdio num domingo que jogariam Vasco e Flamengo, numa decisão de Taça Guanabara. Jota Nunes pediu ao operador de áudio que gravasse o jogo. No decorrer da partida ocorreu um gol do Vasco, narrado pelo locutor da Rádio Globo, Valdir Amaral.

O operador passou logo a informação sobre o gol a Jota Nunes, que pediu ao operador que voltasse a fita na hora do gol e foi logo atendido. Nunes pediu ao operador que deixasse no ponto, abrisse o microfone do estúdio e interrompesse a narração do estádio. O operador titubeou, pois quem estava no estádio era o locutor número 1 da emissora, João Bosco. Mesmo assim, Jota Nunes entrou no ar e colocou a gravação do gol do Vasco, um fato até então, desconhecido para os ouvintes e para os demais integrantes da crônica esportiva. Jota Nunes lembra:

“Nesta hora, o velho Josué foi até ao estúdio perguntar quem fez e como tinha sido feito isso. O operador pensava que a gente ia levar bronca. Eu falei como havia feito e ele apenas sorriu, dizendo que tinha sido uma boa ideia. E eu que estava com o receio que ele não gostasse, falei para ele que ia fazer melhor”.

Com isso, Jota pediu ao operador que levasse um microfone para o estúdio e colocasse em cima do rádio-gravador, deixando o microfone com o volume baixo. Na hora que surgisse um gol, ele baixava o microfone do estádio e aumentava o do estúdio e com isso o gol sairia na íntegra, a mesma forma que é feita até hoje.

Antes da entrada de Jota Nunes no plantonismo esportivo, a Rádio Baré fornecia dados de alguns jogos que aconteciam em outros estados por intermédio do locutor Wuppschlander Lima, que do estádio mesmo dava as informações.

O campo de trabalho nesta área era restrito. Quando Nunes iniciou a carreira no Rádio, apenas duas emissoras faziam coberturas esportivas do Parque Amazonense, a única praça esportiva da cidade. As Rádios Baré e Difusora se incumbiam dessa tarefa.

“A Difusora só fazia transmissão se houvesse patrocínio porque dava muito trabalho levar todo equipamento da emissora para o local do evento. Na quinta ou na sexta-feira, o departamento comercial já tinha uma posição sobre a jornada de domingo, se não houvesse apoio logístico, ia ao ar o programa ‘Parabéns a Você’”.

Além da questão comercial, as emissoras esbarravam em outra situação embaraçosa, o uso dos equipamentos de transmissão. Jota recordou desses episódios.

“Os equipamentos de som da emissora eram bastante pesados. Tinha que ter uma linha telefônica exclusiva. O único meio de se fazer à transmissão era usar a linha da casa do doutor Newton Vieiralves, um grande colaborador da emissora. Ele morava próximo ao Reservatório de água do Mocó, que fica ao lado do cemitério de São João Batista.

Da residência do doutor Newton, levava a fiação conectada até a canaleta (um aparelho que tem as mesmas funções do amplificador e de uma mesa de som) que ligava os microfones, mas era um equipamento bastante pesado. Daí testava o retorno com o estúdio da emissora. Nesse período em que ficava a disposição da Difusora, o telefone não tocava e nem podia ser usado para fazer ligações, pois estava a serviço da Rádio, era um prestador de serviços da Rádio Difusora. Por isso, é que havia a necessidade de fazer parcerias comerciais, pois uma transmissão saía com um custo altíssimo à emissora”.

Segundo o plantonista, não foi da noite para o dia que as melhorias vieram. Na década de 60, houve o futebol amazonense saiu do amadorismo para o profissional. Nunes fez o seguinte comentário:

“A coisa só foi melhorar quase na metade da década de 60. Havia a necessidade de fazer investimentos para as transmissões. Os clubes estavam se organizando, era o início da era do profissionalismo do futebol em Manaus. Os estádios ficavam lotados, vinha gente do interior, que aproveitava o futebol para fazer algumas compras na cidade. A imprensa tinha um papel importante dentro desse contexto”.

A época que o locutor estava se referindo era de 1963, que foi o último ano de amadorismo no futebol. Em 1964, começava o futebol profissional e o interesse do torcedor despertou o interesse dos dirigentes dos clubes em fazer mais investimentos, principalmente na contratação de bons jogadores, pois os clubes sabiam que tinham retorno com a presença do torcedor e o apoio da imprensa esportiva. O estádio Vivaldo Lima (do governo do Estado) começou sua construção com o objetivo de melhorias na infraestrutura do esporte, sobretudo no aumento do público nos estádios.

Jota Nunes recorda de alguns momentos de alegrias e outros de tristezas que teve que dar no ar trabalhando como plantonista. Os momentos de tristeza citados, como a morte do Papa Paulo VI, durante o jogo Nacional e Libermorro que estava sendo transmitido direto do estádio Ismael Benigno, a Colina, o incêndio do edifício Andrauss, em São Paulo, que causou muitas mortes e muita comoção no povo e a instituição do AI-5 (Ato Institucional nº 5) em 13 de dezembro de 1968, pelo então general Artur da Costa e Silva, na época o presidente do país. Já os momentos de alegria com certeza foram bem maiores.

Estava no estúdio da Rádio Difusora quando o Brasil conquistou quatro dos cinco títulos mundiais de futebol: Suécia (58), Chile (62), México (70) e Estados Unidos (94). Na conquista do penta na Ásia, como o horário do jogo feito pela manhã não estava na emissora. Esse prazer de passar a informação aos ouvintes é que fez com que Jota Nunes permanecesse no posto de ‘o mais antigo plantonista esportivo do Amazonas e talvez do Brasil’.

A linguagem do Rádio

Sobre a linguagem do Rádio, Jota Nunes foi saudosista. Ele não quis citar nomes, mas afirmou que:
“Antes os locutores tinham um grande respeito pelos ouvintes, não é como hoje, a proximidade entre locutor e ouvinte é maior, em virtude dos meios de comunicação, principalmente o telefone, a internet, mas falta um interesse a mais por parte de alguns locutores que tratam os ouvintes com uma certa frieza”.

Nunes lembrou de alguns fatos interessantes ocorridos no estúdio da Rádio Difusora, situações que viraram inusitadas tempos depois:

“Uma vez eu estava gripado, mesmo assim fui trabalhar. Com isso, me deu vontade de espirrar. Eu olhei para o operador e ele não se encontrava no estúdio. Não aguentando mais, eu espirrei, quando ouviram o barulho, foi aquele rebu, eu aproveitei e falei, ‘resfriado, cuidado! Tome Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, o conhaque do milagre’, um anunciante do programa. Eu acho que consegui me sair bem”.

A função do plantonista esportivo não cabe apenas ao esporte como radialista ele pode e deve passar qualquer informação, como contribuição ao ouvinte. Na concepção de Jota Nunes o Rádio ainda é o meio de comunicação de mais fácil acesso e por isso deveria ser dado um espaço maior em prol da comunidade.

“Muitos espaços do Rádio de hoje deveriam ser aproveitados de uma maneira melhor, existem programas que não têm compromisso nenhum com a sociedade. O Rádio é mais veloz, sua comunicação é imediata. O plantonista tem que ficar de olho nas notícias alheias ao esporte, pois, algumas vezes ocorrem problemas como acidente automobilístico, enchentes, incêndios, assassinatos. São problemas que nenhum profissional de Rádio com certeza, queria dar ao ouvinte, mas a necessidade obriga a essa situação”.

O respeito de Jota Nunes com o ouvinte, fez com ele alcançasse o reconhecimento do público. Seu programa sempre teve uma grande audiência nos horários de programação da emissora, tanto na Difusora AM, quanto na FM. Em relação ao atual momento vivido pelo futebol do Amazonas, Jota Nunes também se entristece. Não vê porque não acompanha os jogos dos estádios, mas ouve os comentários dos companheiros e lamenta a situação.

Sabe que um futebol forte faz com que todos saiam como vencedores, a crônica esportiva ganha muito quando o futebol está em alta e o futebol engrandece quando a crônica esportiva é atuante.

Lembrou de 1970, quando acompanhou o trabalho dos companheiros membros da ACLEA na vinda da delegação da Seleção Brasileira a Manaus. Nenhuma agremiação gostava de jogar na cidade devido à distância com outros estados.

A Seleção veio a Manaus antes da Copa do México e foi recebida com hospitalidade pelo povo manauara. Em outros estados, a seleção foi muito vaiada. Os jogadores e a comissão técnica gostaram muito do apoio que receberam em Manaus.

O fim de uma carreira vitoriosa

Jota Nunes é torcedor do Vasco da Gama do Rio, em Manaus prefere não citar a sua preferência. Torce para o sucesso de todos os clubes, principalmente quando jogam com times de outros estados em competições oficiais promovidas pela CBF. Lamenta que nenhum clube do Estado esteja na divisão principal do futebol brasileiro.

“É uma perda muito grande para o Estado e para os clubes. Com essa ausência, o futebol amazonense teve uma queda assustadora. Lamento que apenas duas emissoras estejam mantendo os seus departamentos esportivos. O Rádio precisa estar forte. A concorrência se faz necessária para que os profissionais se sintam valorizados”.
Jota Nunes se acha um abençoado.

Gosta da profissão que escolheu e tem o maior prazer quando alguém lhe cumprimenta na rua e faz alguma referência ao trabalho feito na Difusora. Almeja saúde para que consiga sempre realizar os seus sonhos. Por gostar daquilo que faz e com relação ao seu futuro na crônica esportiva do Rádio, Jota Nunes enfatizou:

“Desejo ficar na função até o dia que Deus quiser, não faço planos para o futuro. Lembro das pessoas que trabalharam comigo e já se foram. Enquanto tiver saúde, com certeza darei o melhor de mim para fazer do meu trabalho uma aliança entre mim, o Rádio e o ouvinte”.

Assim, Jota Nunes encerrou a entrevista que pra ele foi muito proveitosa lembrar de fatos que aconteceram em mais de 60 anos de carreira, mostrando a sua trajetória na crônica esportiva. Ressaltou que a falta de recursos tecnológicos não é nenhum obstáculo para um profissional de imprensa, principalmente no Rádio, pois o improviso faz parte do dia a dia do radialista e que depois da descoberta só resta aprimorar.

Foi o que fez em toda a sua vida profissional, um profissional respeitado, talentoso e criativo como ressaltou na entrevista. Se não tivesse esses atributos, dificilmente passaria tanto tempo na mesma atividade iniciada há mais de seis décadas.

Um dos funcionários mais antigos da Assembleia Legislativa do Estado, João Nunes Romero, ou simplesmente Jota Nunes, o Jotinha para muitos de seus amigos, faleceu em 22 de outubro de 2015. Deixou um legado grandioso, uma obra valiosa com o seu trabalho na Rádio Difusora do Amazonas para muitos de seus ouvintes, tanto os desportistas como os interioranos, tristes agora com a ausência de sua voz. Uma voz marcante, suave, mas com uma dicção admirável, que só os grandes radialistas possuem.

Eu só tenho a agradecer a entrevista concedida no ano de 2000 para a minha pesquisa, pela gentileza com que me recebeu e pela honra que tive ao entrevistá-lo. Pois muitos dados sobre o futebol amazonense durante essas décadas foram revelados nesta entrevista. Valeu Jotinha!

Essa matéria foi extraída do livro ‘A trajetória da crônica esportiva no Rádio: A decadência do futebol no Amazonas’, do jornalista Eliomar Castro, realizada no estúdio da Rádio Difusora do Amazonas em 2000, com um dos cronistas esportivos do Amazonas mais respeitado e notáveis que já passou pelos microfones do Rádio amazonense.

Um homem simples, educado, muito receptivo e que tinha um talento e tanto para o veículo de comunicação que ele dedicou mais de 60 anos de sua vida. O texto foi colocado na integra. É uma homenagem a esses grandes nomes da crônica esportiva do Amazonas que deixaram seu nome gravado na história. E no próximo final semana, temos outra matéria com outro talentoso cronista esportivo, Orlando Rebelo. Acompanhe nossas matérias no Portal Alternativa Sports (www.alternativasports.com).

Reportagem: Eliomar Castro; Foto: Divulgação

Alternativa Sports, valorizando o esporte amazonense.

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